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Propaganda de influenciadoras brasileiras é investigada como tráfico humano para Rússia

Investigações internacionais e denúncias de criadores de conteúdo revelam que vagas divulgadas massivamente por influenciadoras brasileiras escondiam um esquema de recrutamento para a produção de armas de guerra, sob investigação da Interpol.

Uma oportunidade de trabalho na Rússia, com salário em dólar, passagem aérea, hospedagem, aulas de idioma e documentação garantidas. Soa como o sonho de uma experiência internacional para muitas jovens. Foi com essa narrativa que influenciadoras brasileiras com milhões de seguidores, como MC Thammy, Catherine Bascoy e Ayla Loures, promoveram o “Programa Start” em suas redes sociais.

No entanto, por trás da embalagem sedutora, investigações de órgãos internacionais apontam para uma realidade sombria: um esquema de recrutamento internacional suspeito de tráfico humano para forçar jovens mulheres a fabricação de drones de guerra.

As publicidades, que circularam amplamente no Instagram e TikTok, eram quase idênticas. Dirigiam-se especificamente a mulheres entre 18 e 22 anos, prometendo um programa de dois anos com salários de até US$ 680, “crescimento de cargo a cada semestre” e a “viagem dos sonhos”. O site promovido era o program-start.com.pt. A mensagem era clara: “Se você estava esperando um sinal para mudar de vida, esse é o sinal”, diziam as influenciadoras em vídeos.

A desconfiança, no entanto, surgiu rapidamente. O youtuber Guga Figueiredo foi um dos primeiros a levantar a bandeira vermelha. Ao investigar, notou a ausência de informações básicas da empresa no Brasil, como CNPJ ou telefone, e um uso do português que não era nativo. Uma busca reversa por imagens dos alojamentos, disponíveis no site, levou a um fio de reportagens internacionais que desvendavam o véu, o esquema já havia sido aplicado em países do continente africano e agora estava acontecendo também no Brasil e em outros de língua portuguesa.

A empresa por trás do “Start” é a Alabuga Start, braço de recrutamento da Zona Econômica Especial de Alabuga, no Tartaristão, Rússia. De acordo com investigações da Bloomberg e de institutos como o de Ciência e Segurança Internacional (ISIS), a Rússia tem recrutado ativamente mulheres de países economicamente vulneráveis (inicialmente na África e, agora, expandindo para América Latina) para suprir a escassez de mão de obra agravada pela guerra contra a Ucrânia.

A promessa de trabalho em áreas como hotelaria e logística seria, na prática, uma fachada. Relatórios de pesquisa e depoimentos indicam que mais de 90% das recrutas acabam destinadas a uma fábrica de drones. Lá, são obrigadas a montar os veículos aéreos não tripulados (como os modelos Shahed), que são subsequentemente usados em ataques ao território ucraniano. Mulheres relataram longas jornadas, vigilância constante e exposição a produtos químicos cáusticos, em condições análogas ao trabalho forçado.

O caso é tratado com extrema seriedade por autoridades internacionais. A Interpol abriu uma investigação em Botsuana contra o programa “Alabuga Start” por suspeita de tráfico de pessoas. Na Argentina, processos judiciais foram movidos contra ex-participantes de reality shows que promoveram a mesma iniciativa. O governo sul-africano emitiu um alerta formal, advertindo seus cidadãos sobre essas ofertas, que estavam sendo oferecidas como “grandes oportunidades” no Brasil.

A reação das influenciadoras ao descobrirem a verdade

Com a repercussão negativa, as publicidades foram apagadas e as influenciadoras se retrataram. Em suas justificativas, um ponto em comum: a terceirização da culpa.

MC Thammy afirmou que a empresa “mandou documentação pra minha assessoria” e que viu “Instagram de uma brasileira que está lá pelo programa”. Em sua defesa, questionou: “Mas não fui só eu que prestei o serviço de divulgação”

Catherine Bascoy declarou que, “ao meu ver, tudo parecia estar em conformidade. Minha intenção nunca foi e jamais será prejudicar quem me acompanha”.

Já Ayla Loures explicou que a publicidade “passou pelo crivo do meu escritório, foi completamente averiguado. Houve comprovação da existência da empresa na Rússia, estava 100% legal”. Ela pediu perdão e disse esperar “um posicionamento da agência que contratou o meu escritório”.

Os criadores de conteúdo Guga Figueredo e Rodrigo Castro rebatem, dizendo que bastava colocar o nome da empresa no Google para achar diversas matérias internacionais sobre o ocorrido em outros países. Eles questionam a isenção de responsabilidade, apontando que a natureza da oferta (um país em guerra, “tudo pago” para jovens em faixa etária específica) por si só deveria ter acendido um alerta crítico, independente de documentações apresentadas.

Ambos os conteúdistas destacaram a natureza suspeita da proposta. Rodrigo Castro descreveu a oferta como “a viagem dos seus sonhos e ainda receber por isso”, salientando que as influenciadoras prometiam um pacote completo: salário em dólar (até US$680), passagem aérea, hospedagem, aulas de russo, seguro saúde e documentação garantida. Guga Figueiredo complementa ao frisar o público-alvo específico: mulheres entre 18 e 22 anos. Para ambos, a combinação de destino (um país em guerra), benefícios excessivos e público jovem e potencialmente vulnerável era o primeiro e mais óbvio sinal de alerta.

Ambos alertam sobre a gravidade única desse caso. Rodrigo Castro foi enfático ao diferenciar esse esquema de outros golpes comuns na internet: “Não estamos falando de tigrinho. Estamos falando de colocar em risco de vida, cara”. Ele lembrou o caso de brasileiros recrutados para a Ucrânia que, supostamente para trabalhar com tecnologia, foram forçados a servir na infantaria. Guga Figueiredo concluiu com uma recomendação direta ao público: ficar longe de ofertas tentadoras e parar de seguir influenciadores que promovem esse tipo de conteúdo, pois a credibilidade deles se mostrou comprometida. “A sua vida e sua segurança são mais importantes”.

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