Prefeito José Alcides Faneco é acusado de coagir munícipe que, em desespero pela vida do irmão, recorreu a um vereador para conseguir vaga em UTI; caso ocorre em meio à maior preocupação dos garcenses, que é a saúde pública
Uma situação de desespero em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Garça transformou-se em um conflito público que expõe as fragilidades do sistema de saúde local e revelou tensões políticas no alto escalão do município. O prefeito José Alcides Faneco (PL), que assumiu neste ano seu quinto mandato à frente da cidade, é acusado de coagir e destratar uma munícipe que tentava salvar a vida do irmão. O episódio, narrado pela própria mulher em redes sociais e confirmado por testemunhas que presenciaram o bate-boca, ocorre em um contexto onde 67% dos moradores de Garça apontam a saúde como sua principal preocupação, segundo dados do portal Opinião Pública para o período de 2025-2028.
O relato tem como protagonista Priscila Natal. Na tarde de 22 de dezembro, segunda-feira, seu irmão chegou à UPA “Doutor Mário Nunes Miranda” em estado grave: desacordado, com hemorragia, defecando sangue e precisando ser entubado às pressas. Ele sofreu uma parada cardíaca dentro da unidade e necessitava urgentemente de um leito de UTI. O médico que o atendeu inicialmente passou o plantão, e a nova médica informou à família que não havia vagas.
Foi então que Priscila decidiu acionar um representante político. Ela entrou em contato com o vereador Adhemar Kemp Marcondes de Moura Filho (Republicanos), que conseguiu a liberação de um leito. O problema, no entanto, persistia: mesmo com a vaga garantida, o paciente não era transferido. A promessa era de que a saída ocorreria às 17h30, mas o tempo passava e a ambulância não era acionada, com os técnicos alegando que aguardavam uma ligação da UTI.
Foi neste cenário de angústia e demora que o prefeito José Alcides Faneco chegou à UPA. Em seu relato, Priscila descreve que o prefeito, após conversar com um técnico, a abordou de forma alterada e diante de cerca de 30 testemunhas. “Quando você quiser ajuda, não fica mandando mensagem pra vereadorzinho, porque aqui quem resolve sou eu!”, teria dito o prefeito, segundo Priscila. Faneco é o político que mais vezes foi eleito prefeito na história de Garça, atualmente em seu quinto mandato não consecutivo.
A discussão se intensificou. Priscila, que afirma ter entrado em confronto verbal com o prefeito a ponto de um segurança ter que intervir, contestou a fala de Faneco de que “a Emergência do UPA era mesma coisa do UTI”. O desfecho da crise só veio por volta das 22h, quando o paciente grave e um senhor que também precisava da vaga conseguiram ser transferidos. Priscila descobriu posteriormente que a resistência em liberar o leito para seu irmão se dava porque a vaga estava sendo reservada para outro paciente particular, também com necessidade.
O vereador citado com tom de deboche pelo prefeito não ficou quieto. Adhemar Kemp Marcondes de Moura Filho, conhecido como “Adhemarzinho”, usou suas redes sociais para se solidarizar publicamente com Priscila Natal e com todos os pacientes que presenciaram o episódio, que classificou como “falta de respeito e sensibilidade do chefe do executivo”. Em comentários, o parlamentar questionou ironicamente se o prefeito havia dito o nome do “VEREADORZINHO”.
A História por Trás do “Vereadorzinho”
O caso escancara uma rivalidade política que tem raízes profundas. Adhemar Filho, de 30 anos, é filho de Adhemar Marcondes de Moura, que foi o segundo colocado na última disputa pela prefeitura de Garça, perdendo justamente para José Alcides Faneco. O vereador pertence a uma tradicional família política da região, com atuação que atravessa gerações.
A trajetória familiar de Adhemar Filho na política regional atravessa quatro gerações. Tudo começou com seu bisavô, Cornelius Marcondes de Melo, co-fundador e primeiro presidente da Câmara Municipal de Álvaro de Carvalho. A tradição foi seguida pelo avô, Júlio “Julinho” Marcondes de Moura, que foi prefeito de Garça por três mandatos e também atuou como deputado estadual por São Paulo. Seu pai, Adhemar Kemp Marcondes de Moura, foi prefeito de Álvaro de Carvalho por três mandatos e foi o segundo colocado na última disputa pela prefeitura de Garça, perdendo para José Alcides Faneco. Atualmente, sua mãe, Leda Hiroko Kussumoto Marcondes De Moura, é a vice-prefeita de Álvaro de Carvalho, reeleita ao lado do prefeito Júlio César. O tio, José Augusto Marcondes de Moura Sobrinho, também deixou sua marca como vereador por Álvaro de Carvalho e por Júlio Mesquita, onde chegou a presidir a Câmara Municipal.
Eleito pela primeira vez em 2020, aos 26 anos, como o mais jovem vereador da história de Garça, Adhemarzinho foi reeleito em 2024 com 1.271 votos, a maior votação já registrada para um vereador no município. Sua atuação na Câmara tem sido marcada por uma ativa fiscalização. Recentemente, ele foi responsável por conseguir um novo aparelho de raio-X para a UPA de Garça, após meses de cobranças. Além disso, na última sessão da Câmara, foi um dos autores de requerimentos que questionam atrasos no pagamento de médicos da UPA e do Hospital São Lucas.
A publicação de Priscila Natal viralizou, acumulando vários comentários de apoio e revolta. Outros moradores compartilharam experiências negativas semelhantes na UPA e na saúde pública de Garça, enquanto alguns vereadores foram marcados para tomar ciência do caso. A vice-prefeita Patrícia Marangão, que compõe a chapa com Faneco, também foi alvo de críticas nos comentários, acusada de inação.
A Secretaria Municipal de Saúde de Garça, sob o comando de Pedro Henrique Scartezini, não se manifestou publicamente sobre o ocorrido até o momento. A UPA Mário Nunes Miranda, local do incidente, é uma unidade 24 horas destinada a casos de urgência e emergência, como suspeita de infarto, febre alta, falta de ar intensa e acidentes.









