Longa que estreia hoje usa depoimentos e arte em quadrinhos para detalhar a semana que antecedeu e sucedeu o assassinato do jornalista, há 50 anos, destacando o impacto do caso na abertura política.
Chega ao público nesta quinta-feira, 23 de outubro, o documentário Herzog – O Crime que Abalou a Ditadura. A produção, que marca os 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, completados no próximo sábado, 25, reconstrói a trajetória de Vlado e os eventos de sua última semana de vida, culminando em seu assassinato por agentes da ditadura militar em 1975. O filme, produzido pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), estará disponível gratuitamente no canal da instituição no YouTube a partir das 19h, no link.
Com depoimentos de familiares, amigos e colegas de cela, o longa busca ir além da narrativa histórica, criando um interesse renovado por um episódio chocante para a democracia brasileira. “A grande preocupação que a gente tinha era fazer isso de uma forma que criasse um interesse novo pela história, que já foi contada muitas vezes. A gente queria trazer um elemento novo”, explicou o diretor e roteirista Antônio Farinaci.
Um recorte no tempo e na memória
A diretora executiva de conteúdo do ICL, Márcia Cunha, detalha que a opção foi por um recorte temporal específico: a semana que antecedeu e sucedeu o crime. O objetivo é entender não apenas o que aconteceu com Herzog, mas as consequências para o país.
“A gente escolheu especificamente esse recorte do crime, exatamente para mostrar como a ditadura agia, o que era capaz de fazer”, afirmou Márcia, fazendo um paralelo com os dias atuais. “Inclusive, utilizando alguns comportamentos e estratégias que são repetidas até hoje. Por exemplo, eles tinham uma espécie de gabinete do ódio em que jornalistas de direita pregavam contra o Vlado”.
A superação da falta de imagens pela arte
Um dos grandes desafios da produção foi a escassez de imagens de arquivo. Para contornar isso, a equipe optou por uma linguagem inovadora: storyboards em formato de histórias em quadrinhos para recriar cenas importantes, como a prisão de Herzog e os momentos de tortura.
“Os nossos recursos de arte foram para tentar criar, em imagem de quadrinhos, o que aconteceu, porque a gente acredita também que vai facilitar que as novas gerações se interessem pelo tema e compreendam a dimensão do que aconteceu”, relatou Márcia Cunha. Os desenhos são da artista ativista Paula Villar, que interpretou visualmente os episódios com base em depoimentos e pesquisas.
“A gente fez uma recriação das coisas que não tínhamos em imagem, porque muitas aconteceram nos porões da Ditadura”, complementou Farinaci. O roteiro foi construído de forma respeitosa e fiel a depoimentos de primeira mão. “São pessoas que estiveram presas com ele no DOI-Codi. É uma história muito contundente”.
O crime que dividiu os militares
O título do documentário não é acidental. O assassinato de Herzog, apresentado pelos agentes como um suicídio, gerou uma comoção nacional que reverberou dentro do próprio regime militar. Márcia Cunha explica que o crime escancarou a divisão entre a linha dura e a ala que defendia uma abertura lenta e gradual.
“Esse crime ajudou que a linha que queria a abertura vencesse. Esse crime teve um impacto muito grande para o fim da Ditadura no Brasil”, analisou.
O filme também resgata a integridade do jornalista. Herzog foi procurado por agentes na TV Cultura, onde trabalhava, mas se comprometeu a se apresentar espontaneamente ao DOI-Codi após colocar o telejornal no ar. “Ele foi lá, se apresentou e, no mesmo dia, foi morto. Nunca mais saiu”, contou Márcia.
A foto que desmentiu a farsa
A produção ainda dedica atenção à famosa foto que divulgou a falsa versão do suicídio. A imagem, tirada por um perito policial, tornou-se ela mesma uma prova da fraude. “Ele está enforcado com o pé e o joelho quase encostado no chão. A foto já era denúncia da fraude, da farsa”, destacou Márcia.
Esse aspecto ganha ainda mais detalhes no podcast Caso Herzog – A foto e a farsa, lançado em conjunto com o documentário. A luta incansável de Clarice Herzog, viúva de Vlado, para provar a verdade e responsabilizar o Estado é um dos fios condutores da narrativa, que busca ecoar não apenas como memória, mas como alerta para as novas gerações.









