Especialistas destacam a importância de falar sobre saúde mental, identificação de sinais de alerta e a existência de uma rede de apoio e legislação. No Brasil, uma pessoa tira a própria vida a cada 45 minutos.
O Setembro Amarelo é mais do que uma campanha; é um movimento de urgência pública que coloca em pauta um tema delicado: a prevenção do suicídio. Institucionalizado no Brasil desde 2015, por uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o mês busca conscientizar a população, combater o estigma em torno das doenças mentais e divulgar formas de ajuda.
A campanha é global e tem seu ápice no dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, data estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com a Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP).
Marco legal
A importância do tema é reconhecida em lei. A Lei Federal nº 13.819/2019, institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. A Lei também é popularmente conhecida como “Vovó Rose” em homenagem a Rosangela Reis, que após perder uma neta para o suicídio, se tornou uma das maiores vozes em prol da informação e da luta pela vida.
A legislação obriga a notificações de casos suspeitos ou confirmados, de auto mutilações e atentando contra a própria vida, sejam feitas por estabelecimentos de saúde e ensino às autoridades, visando a criação de um sistema de dados e a implementação de ações efetivas de prevenção. Além disso, vários estados e municípios possuem leis próprias que reforçam a campanha Setembro Amarelo em seu calendário oficial e promovem ações diversas em escolas e unidades de saúde.
Números que alertam
Segundo a OMS, mais de 700 mil pessoas tiram a própria vida anualmente pelo mundo. No Brasil, os números do Ministério da Saúde apontam que, em média, uma pessoa tira a própria vida a cada 45 minutos. É a quarta causa de morte mais comum entre jovens de 15 a 29 anos. Essas estatísticas, no entanto, são consideradas subnotificadas, pois muitos casos não são registrados como suicídio devido ao estigma e a outros fatores.
Sinais de alerta: saber identificar pode salvar uma vida
O suicídio raramente é impulsivo. Na grande maioria dos casos, é precedido por sinais verbais, comportamentais ou situacionais. Familiares, amigos e colegas de trabalho podem ser os primeiros a notar essas mudanças:
- Comportamentais: isolamento social, aumento no consumo de álcool ou drogas, automutilação, descuido com a aparência, alterações bruscas de humor, despedidas incomuns (como dar pertences valorosos).
- Verbais: frases como “eu preferia estar morto”, “vocês vão sentir saudades quando eu for”, “não aguento mais”, “eu sou um peso para todos”.
- Situacionais: ter passado por um evento traumático recente (perda de um ente querido, fim de um relacionamento, demissão), histórico de tentativas prévias ou diagnóstico de doença grave.
Condições relacionadas
O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial, mas está fortemente associado a transtornos mentais não tratados, não diagnosticados ou não adequadamente controlados. As condições mais relacionadas são:
- Depressão (a principal)
- Transtorno Bipolar
- Esquizofrenia
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)
- Abuso de Substâncias (álcool e drogas)
É importante entender que ter uma dessas condições não significa que a pessoa vai cometer suicídio, mas o risco é significativamente maior. O tratamento adequado é a forma mais eficaz de prevenção.
Onde e quando procurar ajuda
A ajuda deve ser procurada imediatamente ao se identificar os sinais de alerta, seja na própria pessoa ou em alguém próximo. A rede de apoio inclui:
- CVV – Centro de Valorização da Vida: atendimento 24 horas por telefone (discando 188), chat, e-mail e pessoalmente (em algumas cidades). O serviço é gratuito e sigiloso.
- CAPS – Centro de Atenção Psicossocial: unidades especializadas do SUS para atendimento em saúde mental, algumas cidades requerem encaminhamento para o atendimento.
- Unidades Básicas de Saúde (UBS – Postos de Saúde): porta de entrada para o SUS, onde é possível agendar consultas com profissionais.
- Médicos psiquiatras e psicólogos: atendimento na rede privada.
- Emergência: em caso de risco iminente, deve-se procurar uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou ligar para o SAMU (192). Em cidades onde não há o SAMU, pode-se pedir ajuda aos Bombeiros (193) em casos de urgência ou emergência.
Acolhimento sem julgamento
A principal ação é ouvir. Oferecer um espaço seguro, sem julgamentos, críticas ou minimizar a dor do outro (“isso é frescura”, “você tem tudo na vida”). Perguntar diretamente sobre ideias suicidas não induz o ato; pelo contrário, pode aliviar a angústia e abrir portas para a ajuda profissional. É fundamental levar a situação a sério e nunca prometer segredo.
Buscando qualidade de vida
Para quem enfrenta problemas de saúde mental, a qualidade de vida é conquistada com uma abordagem multiprofissional:
- Tratamento contínuo: acompanhamento com psicólogo e/ou psiquiatra.
- Medicação: quando prescrita, deve ser usada corretamente.
- Hábitos saudáveis: prática regular de exercícios, alimentação balanceada e rotina de sono.
- Rede de apoio: manter vínculos com familiares e amigos.
- Atividades prazerosas: encontrar hobbies e atividades que tragam senso de propósito.
O Setembro Amarelo reforça que falar é a melhor solução. Quebrar o tabu, informar e oferecer empatia são os primeiros e mais importantes passos para prevenir tragédias e valorizar a vida em todos os seus meses.









