Estudo revela práticas ilegais em plataformas de apostas, com foco em desinformação e exploração de crianças, adolescentes e consumidores vulneráveis
O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) divulgou um relatório alarmante sobre o ecossistema digital de apostas online, conhecidas como bets. O estudo, encomendado pela Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) e financiado pelo Fundo de Direitos Difusos, expõe violações à legislação, desinformação e danos a grupos vulneráveis, como crianças, adolescentes e pessoas em situação de pobreza. A pesquisa analisou dados de redes sociais e plataformas como Telegram, YouTube, Instagram e Facebook, entre outubro e dezembro de 2024.
YouTube: apostas disfarçadas em conteúdo infantil
Canais verificados no YouTube, muitos voltados para o público infantil, foram flagrados promovendo jogos de azar durante transmissões ao vivo. Um exemplo é o canal Gah Marin, com 5,75 milhões de inscritos, que exibia Fortune Tiger (jogo de cassino, popularmente conhecido como “tigrinho”) em lives posteriormente deletadas.
As transmissões usavam estratégias de SEO para atrair espectadores, com promessas de “bugs” para ganhos fáceis e links direcionando a sites ilegais. O relatório destaca a ausência de moderação eficaz e a tentativa de ocultar conteúdos após a exibição.
Telegram: algoritmo facilita acesso às apostas ilegais
Com 42 milhões de usuários ativos no Brasil, o Telegram abriga uma rede extensa de grupos e bots dedicados a apostas. Desde 2016, mais de 115 mil publicações sobre o tema acumularam meio bilhão de visualizações.
O algoritmo da plataforma recomenda automaticamente canais ilegais, como “GANHE 300 NO TIGRINHO AGORA!” (31 mil membros) e “Brasil Apostas Esportivas Palpites” (54 mil membros), sem filtrar menores de idade. O relatório critica a falta de mecanismos de denúncia e a retroalimentação de comunidades que promovem cassinos e golpes financeiros.
Instagram e Facebook: golpes com bônus e cashbacks (retorno de parte dos valores usados)
Perfis como @dvd_slots no Instagram ofereciam dinheiro via Pix para quem seguisse a página e comentasse seu signo, uma tática para captar cadastros em sites de apostas. No Facebook, publicações em grandes portais de notícias divulgavam bônus de cadastro proibidos pela Portaria nº 827/2024, sem restrições etárias claras.
X (Twitter): publicidades enganosas
Anúncios patrocinados no X direcionavam usuários a sites de apostas com promoções ilegais, muitas vezes com avisos de restrição etária pouco visíveis. Uma publicação recebeu nota da comunidade por violar a Lei nº 14.790/2023, mas outras similares permaneceram ativas.
Recomendações do relatório
O relatório aponta que:
- Plataformas como Telegram e YouTube atuam como catalisadores de apostas ilegais, com algoritmos que amplificam conteúdos nocivos.
- Crianças e adolescentes são expostos a estratégias de marketing predatório, como lives em canais infantis e promessas de “renda fácil”.
- A desinformação banaliza riscos como endividamento e vício (ludopatia), especialmente em grupos vulneráveis.
O Ibict recomenda:
- Regulação mais rígida para plataformas que hospedam conteúdos ilegais.
- Campanhas educativas sobre os riscos das apostas, focando em jovens e consumidores em situação de fragilidade.
- Fiscalização ampliada para coibir publicidades enganosas e garantir conformidade com a LGPD e o Marco Civil da Internet.
Acesso ao relatório completo
O documento está disponível aqui.








