Diário de Garça

Notícias de Garça e região, novidades culturais e cursos gratuitos.

Agosto Lilás: investigadora esclarece o ciclo sutil e persistente da violência doméstica

Em entrevista, Elaine Oliveira detalha as fases da violência, as barreiras para a denúncia e as ferramentas disponíveis para proteger vítimas, além de um panorama da Operação Shamar e das ações do Agosto Lilás no município.

Em uma entrevista concedida à Rádio Nova Alternativa no último sábado, 15 de agosto, a investigadora da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e vereadora de Garça, Elaine Oliveira, apresentou uma aula sobre a complexidade da violência doméstica. A conversa, que integra as ações da Operação Shamar e da campanha Agosto Lilás, foi além dos números e abordou a realidade psicológica que mantém milhares de mulheres em ciclos de agressão e a necessidade de reconhecer os primeiros sinais de relacionamentos abusivos.

Operação Shamar em Garça

A Operação Shamar, uma iniciativa nacional do Ministério de Justiça e Segurança Pública, com parceria das polícias Civil e Militar, já rendeu frutos expressivos no município. De acordo com Elaine, a DDM já efetuou 8 prisões, além de cumprir mandados de busca e apreensão e registrar prisões em flagrante.

Os dados locais mostram um quadro preocupantes: apenas em 2025, já foram registrados 339 boletins de Ocorrência (BOs) na DDM, número que deve superar os 514 registrados em todo o ano de 2024. Para a investigadora, o aumento nas estatísticas não é necessariamente um mau sinal, mas demonstra que as mulheres estão conseguindo reagir.

“Nós trabalhamos lá com mais números de ocorrência, mas as mulheres estão mais aptas, e com menos vergonha, menos intimidada, para poder ir fazer e falar sobre o assunto e pedir socorro”, analisa Elaine.

Ciclo da violência: do “amor” ao “cativeiro emocional”como começa e por que é difícil romper”

A especialista explica que a violência raramente começa com uma agressão física. Ela se inicia de forma sutil, em um padrão recorrente chamado “Ciclo da Violência”.

“No começo aparecem sinais sutis de controle, que muitas vezes são confundidos com ciúme ou amor. Depois vêm as agressões e, em seguida, a fase da ‘lua de mel’, quando o agressor pede perdão. Esse ciclo é muito difícil de ser quebrado porque a mulher acaba acreditando que a culpa é dela”, explicou Elaine.

Esse padrão, segundo ela, leva muitas mulheres a desenvolverem ansiedade, depressão e até tentativas de suicídio. Ele é composto por três fases:

  1. Fase da Paixão/Controle Sutil: o agressor começa a controlar e manipular a vítima, proibindo-a de ver amigos, trabalhando ou exigindo senhas de redes sociais. “Ela acha ainda que isso é amor, isso é ciúmes. Ela perdoa”, relata Elaine.
  2. Fase da Tensão/Violência: A manipulação evolui para agressões verbais, humilhações e, frequentemente, violência física.
  3. Fase da “Lua de Mel”: O agressor se arrepende, pede perdão prometendo mudança, e a relação vive um breve período de harmonia. “Mas é sempre por pouco tempo”, alerta a investigadora.

Romper este ciclo é extremamente difícil devido à dependência emocional e a uma profunda manipulação psicológica, conhecida como gaslighting. “Ele consegue desconstruir uma mulher… Inverte a questão do autor e a questão da vítima, e ela acaba achando que ela deu causa àquela agressão”, detalha Elaine. Frases como “você sem mim não é nada” e “ninguém vai te querer” são armas comuns para destruir a autoestima da vítima.

Mais do que violência física

A vereadora lembrou que os abusos não se resumem às agressões visíveis.

“Temos também a violência psicológica, moral, sexual e patrimonial. A falta de pagamento de pensão, por exemplo, também é uma forma de violência contra a mulher e os filhos”, ressaltou.

Além do medo, a vergonha é uma barreira para muitas mulheres denunciarem o que sofrem. “Às vezes elas também têm vergonha de chegar à delegacia da mulher ou até contar o que sofrem dentro da sua casa para um amigo, para um familiar”. Esse isolamento é muitas vezes incentivado pelo agressor, que afasta a vítima de sua rede de apoio. Elaine revela um triste retrato de gerações passadas:

“Senhorinhas chegam na delegacia… e elas falam: ‘Eu vivi isso a minha vida inteira. Agora eu não aguento mais. Eu preciso ter paz'”.

Impacto da violência em toda a família

A violência não atinge apenas a mulher. Crianças que crescem em lares violentos também sofrem graves consequências.

“Recebemos relatos de filhos ansiosos, que não conseguem dormir por medo da violência dentro de casa. O ciclo atinge toda a família e pode se repetir nas próximas gerações”, relatou a investigadora.

Quebrar esse ciclo não trará mais segurança apenas à mulher, mas também aos filhos, que passam a ter um lar mais estruturado e deixa de presenciar brigas constantes e violência.

Ferramentas de proteção

Elaine reforçou os canais disponíveis para vítimas de violência:

  • DDM de Garça – rua Carlos Gomes, 213 (próximo aos Correios);
  • Telefone 180 – Central de Atendimento à Mulher;
  • Telefone 190 – Polícia Militar em casos de emergência;
  • Delegacia Eletrônica – registro online;
  • Aplicativo SOS Mulher (SP) – gratuito para download para Android e IOS.

Durante a entrevista, ela deu destaque especial ao aplicativo “SOS Mulher”, da PM-SP, ao explicar que mulheres com medida protetiva podem baixar o app, cadastrar seus dados e acionar um botão do pânico silencioso em caso de emergência, que envia imediatamente a localização via GPS para o COPOM, priorizando o atendimento. Porém, todas as mulheres podem e devem baixar o aplicativo para conhecê-lo e se manter informada.

A investigadora ainda comentou sobre o projeto de lei em análise no Congresso que prevê tornozeleiras eletrônicas para agressores, medida que pode ampliar a fiscalização do cumprimento das ordens judiciais.

Romper o silêncio é preciso

Elaine reforçou que a culpa nunca é da vítima e que o silêncio fortalece o agressor.

“Medo e controle não são amor. É violência. E a sociedade não pode mais aceitar aquela ideia de que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’. É preciso intervir e denunciar”, disse.

A investigadora também destacou que a DDM está aberta não apenas para registros, mas também para orientações.

“Às vezes a mulher só precisa conversar. A delegacia está de portas abertas”, concluiu.

Descubra mais sobre Diário de Garça

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Descubra mais sobre Diário de Garça

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading